domingo, 6 setembro 2026

Via-crúcis do ex-presidente desagregou direita e bolsonarismo – Por Nonato Guedes

Paraíba
Na opinião do presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, a via-crúcis
experimentada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a mais de duas décadas
de prisão por envolvimento na preparação de um fracassado golpe de Estado no Brasil,
tem piorado as condições físicas e psicológicas do ex-mandatário, agravadas por crises
familiares e por divergências incontroláveis no segmento da direita e dos partidos que
ainda se mantêm fiéis à liderança dele. Acredita Valdemar que se houver flexibilidade
na condenação do ex-mandatário e o cenário favorecer uma iminente soltura sua,
Bolsonaro recupera o entusiasmo para voltar à normalidade, obviamente militando na
política, que tem sido seu ramo de atividade principal. Consequentemente, a saúde
melhoraria e o líder da direita retomaria o ímpeto para voltar a percorrer o país com
sua pregação de uma nota só com que fustiga a esquerda, o Partido dos Trabalhadores
e o presidente Lula.
Valdemar simplifica coisas sérias, como se a um sinal de que esta liberado,
Bolsonaro pulasse da cama e ganhasse as ruas em itinerário político-eleitoral
vendendo saúde e jovialidade. No fundo, trata-se de um balão de ensaio, uma
orquestração calculada para sondar ou testar a possibilidade de concessão de uma
anistia pelo Congresso Nacional que devolvesse, principalmente, o ex-mandatário à
rotina da discurseira política e da agitação extremista do segmento com que se
identifica. O presidente nacional do PL revela, com sagacidade, a percepção de que
esfriou qualquer articulação no âmbito da Câmara Federal ou do Senado para
recolocar em pauta a bandeira da anistia aos condenados no 8 de janeiro em Brasília,
quando o país esteve na iminência de reedição de um golpe antidemocrático,
destinado a restituir a ordem autoritária que vigorou por 21 anos na esteira da
malsinada revolução de 1964. E a bandeira esfriou porque não há fundamentação
plausível para uma anistia oportunista, moldada para promover a volta de Bolsonaro
aos comandos institucionais de poder, sem falar que esbarra na resistência do
Supremo Tribunal Federal.
Na verdade, a condenação imposta a Bolsonaro provocou a desagregação das
forças de direita e o desmantelamento do bolsonarismo na conjuntura política
nacional, pela incapacidade de reposição de quadros que mantivessem acesa a chama
e preservasse espaços de influência junto a compartimentos do eleitorado brasileiro. O
personalismo atribuído ao ex-presidente e refletido equivocadamente na imagem do
“mito” impediu que a direita estruturasse melhor um projeto de poder que pudesse
ser levado à frente, independente de líderes ou de condutores. Bolsonaro foi fruto de
uma situação atípica, de exaustão com a predominância de antigas oligarquias no
revezamento dos quadros de poder, mas nunca se revelou um líder popular vibrante,
tanto assim que os fiéis bolsonaristas assistiram perplexos mas sem reação à sua
queda, ao seu ostracismo. Sucedeu-se, então, a briga pelo espólio, detonada
prioritariamente em família, dentro do “clã”, opondo a ex-primeira-dama Michelle ao
enteado senador Flávio Bolsonaro, que foi ungido pelo pai para ser seu herdeiro

político. Flávio tem oscilado em pesquisas mas não provoca grandes mobilizações, o
que sinaliza que tem limitações para avançar.
Na verdade, falta conteúdo ou substância às falas que hoje são sustentadas pelos
órfãos do bolsonarismo, caindo na contramão do antipatriotismo, ao privilegiar o
apoio a tarifas dos Estados Unidos contra o comércio brasileiro. Essa postura
beligerante já prejudicou sensivelmente o empresariado brasileiro, que começou a
descolar do bolsonarismo quimicamente puro e a procurar outras opções, a primeira
delas o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, que não se
sentiu prestigiado nem estimulado para empalmar a bandeira da direita e preferiu
apostar mesmo na reeleição ao Palácio dos Bandeirantes. O quadro ficou nebuloso
com a ocupação de espaços por parte dos ex-governadores Ronaldo Caiado (Goiás) e
Romeu Zema (Minas Gerais), que atuam sem uma estratégia mais profissional para se
credenciar no campo da direita, neutralizando a liderança de Flávio Bolsonaro.
Sem muito esforço, a esquerda já conseguiu um feito: dividir o coração da direita,
que bate cabeça todo santo dia para engendrar fórmulas de pacificação ou
entendimento sem cancha nem habilidade para tanto. Nessas circunstâncias, ainda
que enfrentando oscilações sazonais, a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva parece assegurada como fator para alavancar sua candidatura quando do
acirramento dos ânimos ou da radicalização propriamente dita. Não se trata de
apostar que o presidente Lula é imbatível nas urnas – ele sofre restrições e até parcela
residual de rejeição junto a segmentos da opinião pública que antes estavam fechados
incondicionalmente com sua liderança. Mas Lula ainda é o grande nome para fazer
frente à direita e às forças do atraso que tentam a todo custo ressuscitar na conjuntura
brasileira. O bolsonarismo dificilmente se recuperará a tempo de vencer uma eleição
imprevisível como a deste ano.


Por: Paraiba.com.br

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