A desistência de Ricardo Barbosa (PP) da disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados retira das urnas um candidato que chegou muito perto de conquistar um mandato federal em 2022 e deixa 63.777 votos da eleição passada sem o mesmo nome como referência em 2026.
Ricardo anunciou no domingo (23) que não seguirá candidato a deputado federal e que passará a atuar diretamente na coordenação da campanha de reeleição de Aguinaldo Ribeiro (PP). A decisão transforma suas antigas bases municipais em um ativo importante na disputa proporcional deste ano, principalmente dentro do grupo governista.
Em 2022, quando ainda estava no PSB, Ricardo recebeu 63.777 votos, equivalente a 2,88% dos votos válidos para deputado federal na Paraíba. Ficou entre os candidatos mais votados do estado, mas não conquistou uma das 12 cadeiras por causa da distribuição das vagas pelo sistema proporcional.
Agora, quatro anos depois, o próprio Ricardo dá uma indicação clara sobre para onde pretende conduzir sua estrutura política: Aguinaldo Ribeiro.
“Recebi, reiteradamente, do deputado e amigo Aguinaldo Ribeiro o convite para assumir uma nova missão: contribuir diretamente na coordenação de sua campanha à reeleição”, afirmou Ricardo ao anunciar a saída da disputa.
Aguinaldo larga na frente pela herança política
Aguinaldo é o nome mais diretamente beneficiado pelo movimento porque, além de receber o apoio público de Ricardo, passa a contar com ele dentro da própria coordenação da campanha.
E o primeiro efeito prático já apareceu.
Após o anúncio, o prefeito de Curral de Cima, Adjamir, e seu grupo político declararam apoio a Aguinaldo para deputado federal. Adjamir é cunhado de Ricardo Barbosa e afirmou que a escolha ocorreu após a decisão e indicação do ex-deputado.
O movimento é um sinal de que Ricardo tentará transferir não apenas apoio pessoal, mas também prefeitos, vereadores e lideranças municipais que já estavam vinculados à sua candidatura.
Isso, no entanto, não significa que os 63.777 votos de 2022 serão automaticamente transferidos para Aguinaldo.
Voto não é patrimônio de candidato e, em quatro anos, alianças municipais, partidos, prefeitos e concorrentes mudaram. Ainda assim, o mapa eleitoral de Ricardo ajuda a identificar onde existe uma base política que agora ficará aberta à disputa.
Onde Ricardo foi mais forte em 2022
Dados eleitorais mostram que a votação de Ricardo Barbosa em 2022 foi bastante concentrada em alguns municípios.
Entre suas maiores votações nominais estavam:
- João Pessoa: 5.562 votos
- Mamanguape: 5.335 votos
- Solânea: 5.002 votos
- Rio Tinto: 4.566 votos
- Itapororoca: 3.988 votos
- Itaporanga: 3.442 votos
- Barra de São Miguel: 3.045 votos
- Marcação: 2.452 votos
- Juripiranga: 2.270 votos
- Lagoa de Dentro: 1.753 votos
- Serra da Raiz: 1.330 votos
- Manaíra: 1.004 votos
- Cabedelo: 962 votos
- Bayeux: 947 votos
- Santa Rita: 848 votos
- Baía da Traição: 692 votos
Os números revelam que Ricardo possuía bases importantes principalmente no Litoral Norte, Brejo, Vale do Mamanguape e em municípios específicos do Cariri e Sertão.
Em algumas cidades, o peso relativo era ainda mais impressionante.
Em Barra de São Miguel, Ricardo recebeu 3.045 votos, correspondentes a aproximadamente 67% dos votos para deputado federal no município. Em Serra da Raiz, foram 1.330 votos, cerca de 59%. Em Marcação, teve aproximadamente 48%; em Itapororoca, 40%; em Lagoa de Dentro, 35%; em Solânea, quase 34%; e em Rio Tinto, pouco mais de 33%.
São justamente essas cidades que passam a merecer atenção especial nas próximas semanas.
Aguinaldo não será o único de olho nessas bases
Embora Ricardo tenha escolhido Aguinaldo, outras candidaturas também podem disputar seus antigos eleitores.
Isso acontece porque Ricardo mudou de partido entre as duas eleições. Em 2022, concorreu pelo PSB; em abril deste ano, deixou a legenda e ingressou no Progressistas a convite do próprio Aguinaldo.
Parte das lideranças que esteve com Ricardo em 2022 pode ter permanecido ligada ao PSB ou construído novos compromissos políticos ao longo dos últimos quatro anos.
Além disso, a disputa federal dentro da Federação União Progressista é competitiva.
A nominata registrada inicialmente reuniu nomes como Aguinaldo Ribeiro, Damião Feliciano, Eliza Virgínia, Emerson Panta, Julian Lemos, Guga Pet, Cicinha e Pollyanna Werton, além do próprio Ricardo antes da desistência.
A federação chegou à campanha trabalhando politicamente com a expectativa de eleger até três deputados federais.
A saída de um candidato que obteve mais de 63 mil votos na eleição anterior reduz a concorrência interna e muda a distribuição potencial de votos dentro da própria nominata.
Litoral Norte vira área estratégica
O mapa de 2022 mostra que uma parte expressiva da força eleitoral de Ricardo estava no Litoral Norte.
Ele teve 5.335 votos em Mamanguape, 4.566 em Rio Tinto, 3.988 em Itapororoca, 2.452 em Marcação e 692 em Baía da Traição.
Somente nesses cinco municípios, foram mais de 17 mil votos.
Esse bloco eleitoral passa a ser particularmente importante para Aguinaldo caso Ricardo consiga levar consigo as lideranças locais que construíram sua votação anterior.
Mas esse processo precisará ser acompanhado município por município.
A primeira adesão anunciada em Curral de Cima indica que a articulação começou, mas ainda não permite concluir que todas as antigas bases seguirão o mesmo caminho.
João Pessoa também tinha peso importante
Apesar da força no interior, a maior votação nominal de Ricardo em uma única cidade em 2022 veio de João Pessoa: 5.562 votos.
Na Capital, porém, a pulverização é muito maior e torna a transferência política mais difícil.
O eleitorado pessoense concentra vários deputados federais com mandato, candidatos ligados à Câmara Municipal, lideranças estaduais e nomes com forte presença digital.
Por isso, ao contrário de pequenas cidades onde Ricardo chegou a concentrar mais da metade dos votos, os 5,5 mil votos da Capital tendem a estar muito mais abertos à disputa.
Uma vaga ficou menos congestionada dentro da federação
A saída de Ricardo também altera a matemática interna da eleição proporcional.
Em 2022, ele teve votação semelhante à de deputados que conseguiram mandato. Ricardo recebeu 63.777 votos; Damião Feliciano foi eleito com 64.023, diferença de apenas 246 votos entre os dois.
O resultado mostra que Ricardo chegaria a 2026 como um candidato potencialmente competitivo.
Sua retirada significa que dezenas de milhares de votos que poderiam ficar dentro de sua candidatura individual passarão a ser disputados por outros nomes.
Para Aguinaldo, há uma vantagem adicional: além de tirar um concorrente forte da nominata, ele ganha o próprio Ricardo como articulador político.
“Herdeiro” só será conhecido nas urnas
A expressão “herdar os votos” precisa ser utilizada com cautela.
Os 63.777 votos pertencem aos eleitores que escolheram Ricardo em 2022 e não existe garantia de que eles acompanharão sua indicação em 2026.
O que existe, de forma concreta, é uma estrutura política composta por prefeitos, vereadores, lideranças municipais e apoiadores que estava sendo organizada em torno da candidatura de Ricardo e que agora poderá ser redirecionada.
Aguinaldo Ribeiro parte na frente nesse processo porque recebeu o apoio formal, incorporou Ricardo à coordenação da campanha e já começou a receber adesões ligadas ao ex-candidato.
Por: Paraiba.com


















